sábado, 20 de maio de 2017

Somos feitos de histórias: reflexões sobre a literatura e a biblioteca

Compartilho com vocês a apresentação realizada na última quinta-feira, 18 de maio, no evento I Encontro de Bibliotecários, realizado pela Editora FTD, em Porto Alegre.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

A formação de leitores literários: um desafio para a escola


Pintura de Ditz. Fonte: Pinterest.

Ainda que a leitura não seja uma prática constante na vida de grande parte da população brasileira – a última pesquisa Retratos da Leitura, divulgada em 18 de maio, revelou que o brasileiro lê, em média, 4,96 livros por ano – na última década, temos o surgimento, a partir do fim dos anos noventa, de várias iniciativas mobilizadas por comunidades, escolas, instituições públicas e privadas que se propõem a democratizar o acesso ao livro e valorizá-lo no imaginário coletivo. Outro dado da pesquisa recente é de que o principal agente influenciador na formação de leitores é o professor, e não mais a mãe, figura destacada pelos entrevistados até as duas últimas pesquisas Retratos da Leitura no Brasil.
O processo de universalização do acesso ao ensino traz novos desafios à escola brasileira, sendo, um dos maiores, o de formar leitores. A escola pública tem acolhido alunos oriundos de contextos onde as práticas de leitura e de escrita não dialogam, de forma direta, com suas necessidades, uma vez que, a seus pais e avós, lhes fora negado, historicamente, o direto à educação formal. No entanto, nestes ambientes familiares pouco letrados, circulam amplamente textos orais da cultura popular, como as cantigas, parlendas, ditados populares, lendas urbanas, e os mitos.
Ora, se a iniciação literária destes alunos é pela oralidade, por que não trazê-la para a escola e tomá-la como fonte de conhecimento e material de estudo? Há alguns anos, trabalho com turmas dos anos finais do Ensino Fundamental o registro de lendas urbanas da comunidade local e, a partir deste estudo, os alunos conseguem identificar e relacionar conteúdos de outras disciplinas, como, características geográficas de determinadas regiões associadas à presença de elementos sobrenaturais (por exemplo, em comunidades menos urbanizadas, a presença de lobisomem), e o trabalho se torna consistente a partir da leitura e da produção de outros textos sobre e/ou do gênero estudado em sala de aula. Além disso, outras linguagens artísticas (cinema, música, artes plásticas, entre outras) e outros suportes, sobretudo sites da internet, dialogam com as produções estudadas, fazendo que o aluno amplie seu repertório cultural sem desconsiderar o contexto em que está inserido culturalmente.

A formação de leitores literários se consolida por meio de ações mediadoras que façam com que o aluno se aproprie da palavra escrita como uma ferramenta para perceber, entender e intervir em sua própria narrativa de vida. Tal processo exige a consolidação de um projeto pedagógico de formação de leitores, que se qualifica com a participação de vários segmentos da escola, sobretudo dos professores e de seus gestores, que, muitas vezes, precisam subsidiar, financeiramente, a compra de acervo para a biblioteca e para os projetos de leitura literária. Para que isso se efetive, também é fundamental que os mediadores de leitura que estejam à frente dos projetos sejam leitores de literatura de qualidade, tenham a sensibilidade para a escuta do repertório cultural trazido pelos alunos e que ofereçam propostas de produção que sejam espaços de construção de subjetividade dos seus educandos.        

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Oficina de Poesia - Sérgio Vaz

Esta crônica do Sérgio Vaz pode ser um exercício de imaginação com seus alunos para mostrar-lhes o conceito de poesia. 

OFICINA DE POESIA
"O que é poesia?" O menino me perguntou na escola.
"Poesia é a forma diferente de olhar as coisas." Respondo, mas sem saber bem se essa é a resposta.
Peguei um copo com água e perguntei:
" O que tem em minhas mãos?"
"Água." Todos responderam.
Perguntei de novo:
" O que tem nas minhas mãos?"
"Água."
Perguntei mais uma vez, só que desta vez alguém lá no fundo, alguém disse:
"Mar."
do outro lado alguém disse
"Chuva."
"Enchente."
"Lágrimas."
"Vida."
"Suor."
"Refrigerante."
"Suco."
"Banho."
etc.
etc.
etc.
Aí, eu perguntei:
"Pera lá, mas agora pouco não era só um copo de água?"
"Ha, ha, ha, ha, ha, ha..."
"Ha, ha, ha, ha, ha, ha, ha..."
E todos nós rimos como se a dor não existisse.
E a água da poesia quase afogou meus olhos.
O Coração já tinha transbordado há muito tempo.
Poeta Sergio Vaz no Facebook

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

POESIA E ADOLESCÊNCIA: será que rola?

É bem comum ouvir professores dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio afirmarem que seus alunos adolescentes não gostam de ler poesia. 

No entanto, parece-me que esta constatação não contempla um olhar atento do mediador de leitura literária para seu público jovem: o modo como os adolescentes se relacionam com a palavra escrita, se dá, em grande parte das vezes, através do poema. É só olhar as últimas folhas de um caderno de adolescente. Em meio a assinaturas estilizadas, coraçõezinhos, encontramos frases soltas que revelam as inquietações amorosas e existenciais do jovem, mas também frases cheias de ironia - um exemplo é o "só que não!" - figura de linguagem bastante utilizada pelos teens. Grande parte do acervo linguístico dos jovens vem da internet, através dos memes, das letras de música, dos poemas apócritos (caso dos supostos poemas de Clarice Lispector e Caio Fernando "de" Abreu). 

O que fazer com este repertório de conhecimentos trazidos empiricamente pelo aluno? Primeiro, não se pode desprezá-lo, ainda que a qualidade literária desses textos não seja a desejável pelo professor. Letras de música são uma forma de aproximação do jovem com a poesia, através de gêneros que exploram elementos visuais do poema, como o RAP (a propósito, sua sigla em inglês é Rhythm and Poetry), a MPB e, inclusive, outros menos explorados, como o repente e a trova (formas de improvisação musical). A partir deste estudo, resgatar a origem da poesia, que nasce ligada à música na Grécia Antiga, propõe um diálogo interdisciplinar com Artes e História. A propósito, recomendo o texto do poeta Arnaldo Antunes, "A origem da poesia". A obra poética de Antunes, a de poetas concretistas, como os irmãos Campos e Décio Pignatari, e de contemporâneos, como Alice Ruiz e Ricardo Silvestrin, propõem inúmeros jogo de sentidos com a palavra concreta, muitas vezes, com ironia. Que tal propor jogos de criação com a palavra e expor como uma intervenção poética pelas paredes e corredores da escola?

Tratando de acervo de poesia autoral para jovens, além dos autores indicados acima - aceito sugestões, pois o conhecimento sempre é limitado - indico "Duelo de Batman contra a MTV", de Sérgio Capparelli, que trata do rompimento simbólico que o jovem precisa ter com sua família para que consiga construir sua própria história; "Um pequeno tratado de brinquedos para meninos quietos da cidade", de Selma Maria, que, com muita sensibilidade, traz imagens poéticas que dialogam com a vida urbana; "Autorretrato", de Renata Bueno, cujo projeto literário e gráfico pode possibilitar atividades que proponham um autorreconhecimento deste jovem. Lembro também de dois livros que li com os alunos (não os tenho aqui comigo), mas que conversam bastante com o universo juvenil, "Poeplano", de Dilan Camargo, e "Futurações", de Caio Riter.


Com os poetas "clássicos", a lista é grande e varia muito de acordo com a percepção do mediador de leitura em relação a seus alunos (seus hábitos, gostos pessoais). Dependendo do acervo da biblioteca, ou até mesmo do que está disponível na internet, o interessante é ofertar uma lista de autores para que os próprios alunos façam suas preferências e que sugiram a inserção de novos nomes para a lista. Pela minha experiência, Mario Quintana é o queridinho dos adolescentes - tanto pelo lirismo como pela amargura presentes em seus poemas. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

RELATO DE EXPERIÊNCIA: Retratos da Leitura em Esteio - um projeto de pesquisa científica

          Uma das políticas pedagógicas da rede municipal onde trabalho - a saber, da cidade de Esteio - é a prática da pesquisa de investigação científica no Ensino Fundamental, a fim de que os alunos se apropriem gradativamente de conceitos e de ideias, vinculando-os entre as diferentes áreas do conhecimento. No segundo trimestre, orientei, com professores colegas, alguns projetos de pesquisa, e nesta postagem, pretendo contar um pouco do que foi feito com a turma do 7ºB. 

O projeto de pesquisa "Retratos da Leitura em Esteio" partiu de uma proposta minha e da professora Cáren Saraiva, de Matemática, para a turma. Através do processo metodológico de uma pesquisa quantitativa, os alunos buscaram conhecimento de ambas as disciplinas para medir o comportamento e o hábito de leitura dos moradores da cidade de Esteio, localizada na região metropolitana de Porto Alegre. 


A metodologia utilizada seguiu os passos da pesquisa em âmbito nacional “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro, adaptada para o contexto social e para a faixa etária dos alunos. Depois de mostrados e discutidos os índices de leitura nacionais, os alunos foram a campo entrevistar moradores de Esteio, no total de 0,01% da população da cidade (ou seja, 81 pessoas). Paralelamente, o grupo leu textos indicados pela professora de Português para a construção do referencial teórico da pesquisa. Depois de realizar os questionários, os alunos calcularam e tabularam os dados nas aulas de Matemática, e, com a professora de Português, analisaram os dados levantados para a construção das conclusões do trabalho.


        A culminância do projeto foi sua apresentação na Feira de Ciências e Ideias da escola, onde a comunidade escolar conheceu os índices de leitura da cidade e pôde acompanhar toda a trajetória de pesquisa dos alunos. 

        Durante o processo da pesquisa, os alunos puderam avaliar, de forma crítica e emancipada, os motivos pelos quais ainda não temos uma sociedade leitora em nosso país e comunidade, e, mais do que isso, puderam propor iniciativas que fomentassem o gosto e o hábito da leitura entre os moradores da cidade onde vivem.
           Nas conclusões do trabalho, a iniciativa de incentivo à leitura mais lembrada pela turma foi a realização de mais eventos literários, como Feira do Livro, em outros locais da cidade. Outras iniciativas sugeridas foram: Bibliotecas Móveis em praças de grande circulação da cidade, como a Praça do Expedicionário e a Praça da Juventude, e a criação de um Clube de Livro, inclusive no próprio espaço da escola, onde leitores possam se reunir para discutir o que leram e o que gostam de ler. O parágrafo final da conclusão do trabalho aponta algumas constatações feitas pelo grupo de alunos: “Por fim, avaliamos que a leitura é valorizada no discurso das pessoas, mas não é uma pratica constante em suas vidas. Precisamos investir muito ainda para que tenhamos mais leitores, isso deve começar na casa das pessoas, continuar na escola e ir para sua vida toda.”

Confira os resultados da pesquisa através do relatório realizado pelos alunos: