sábado, 3 de junho de 2017

Mediação de leitura: Dois passarinhos, Dipacho, Editora Pulo do Gato



Ensinar a ler literatura dentro do contexto escolar não é uma tarefa fácil. Exige técnica e sensibilidade, experiências que procuram escavar sentidos de uma obra. No âmbito da escola pública de periferia, território que oprime nossas crianças e jovens pelos flagelos sociais que enfrentam, ler literatura é um desafio ainda maior, pois o trauma da falta acaba, muitas vezes, emudecendo nossa experiência perante o mundo.

Porém, são nestes ambientes que imaginar se faz ainda mais necessário, e a palavra literária, mais ainda, pois é ela quem revela novos sentidos para nossa existência, nos concede, democraticamente, uma voz a ser ouvida.

Hoje, na escola, fiz a mediação de leitura do livro “Dois passarinhos”, livro de imagem do ilustrador colombiano Dipacho, publicado pela Pulo do Gato, editora parceira do Descobrinhança.

De início, apenas disse aos alunos que se tratava de um livro com uma “característica” diferente daqueles que conheciam, mas não disse qual era. E, para minha surpresa, só depois da leitura foi que uma aluna veio dizer que descobrira o que era “diferente” nesta história.

A ação da narrativa visual se estabelece entre duas personagens – dois passarinhos, um preto e outro branco – e em torno de uma árvore, cujo caule fica centralizado na divisão das páginas duplas. As personagens vão trazendo vários objetos para os galhos da árvore, numa competição (palavra muito usada pelos alunos), até que a planta não se sustenta e seus galhos acabam caindo. Resta, ao final, os dois passarinhos, de costas um para o outro, na beirinha do toco que restou dos galhos caídos.

“Dois passarinhos”, na leitura dos meus alunos do sexto ano, é uma narrativa cujo tema social se sobressai aos elementos internos da narrativa. Em seus comentários pós-leitura, surgiu muito a questão da ganância das personagens por quererem ser mais do que o outro e da acumulação de coisas por acumular. Alguns relacionaram os passarinhos e árvore como símbolos (eles ainda não conhecem o que é metáfora) da ação humana contra a natureza, citando como a acumulação indevida acaba gerando lixo e destruindo a natureza (poluição e desmatamento foram temas sociais citados).  
Acredito que o termo “consumismo” não tenha vindo à tona porque o ato de consumir, nesta comunidade, tem a ver com a subsistência de suas famílias, sendo assim privadas de privilégios materiais.  

Foi trazido, também, o caráter irônico das imagens de Dipacho, pois, ao verem tantas coisas sem sentido algum acumuladas, os alunos riram, à medida em que mediava a leitura para o grupo. Outra sensação revelada pelo grupo foi de tristeza ao ver os galhos da árvore desmoronarem.


Ao perguntar de que forma tinham lido um livro “sem palavras”, as respostas vieram carregadas de caráter imaginativo: cores, formas, desenhos foram moldurando no pensamento a história que lhes fora contada. Isso revela que, apesar daquilo que o mundo tira destas crianças, há algo que ninguém lhes pode tirar: vida imaginária. A experiência de hoje revela que a literatura tem o poder de povoar nossa imaginação, seja com palavras e imagens, para que possamos nos identificar com experiências diferentes da nossa, e ao mesmo tempo, tão parecidas.  

sábado, 20 de maio de 2017

Somos feitos de histórias: reflexões sobre a literatura e a biblioteca

Compartilho com vocês a apresentação realizada na última quinta-feira, 18 de maio, no evento I Encontro de Bibliotecários, realizado pela Editora FTD, em Porto Alegre.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

A formação de leitores literários: um desafio para a escola


Pintura de Ditz. Fonte: Pinterest.

Ainda que a leitura não seja uma prática constante na vida de grande parte da população brasileira – a última pesquisa Retratos da Leitura, divulgada em 18 de maio, revelou que o brasileiro lê, em média, 4,96 livros por ano – na última década, temos o surgimento, a partir do fim dos anos noventa, de várias iniciativas mobilizadas por comunidades, escolas, instituições públicas e privadas que se propõem a democratizar o acesso ao livro e valorizá-lo no imaginário coletivo. Outro dado da pesquisa recente é de que o principal agente influenciador na formação de leitores é o professor, e não mais a mãe, figura destacada pelos entrevistados até as duas últimas pesquisas Retratos da Leitura no Brasil.
O processo de universalização do acesso ao ensino traz novos desafios à escola brasileira, sendo, um dos maiores, o de formar leitores. A escola pública tem acolhido alunos oriundos de contextos onde as práticas de leitura e de escrita não dialogam, de forma direta, com suas necessidades, uma vez que, a seus pais e avós, lhes fora negado, historicamente, o direto à educação formal. No entanto, nestes ambientes familiares pouco letrados, circulam amplamente textos orais da cultura popular, como as cantigas, parlendas, ditados populares, lendas urbanas, e os mitos.
Ora, se a iniciação literária destes alunos é pela oralidade, por que não trazê-la para a escola e tomá-la como fonte de conhecimento e material de estudo? Há alguns anos, trabalho com turmas dos anos finais do Ensino Fundamental o registro de lendas urbanas da comunidade local e, a partir deste estudo, os alunos conseguem identificar e relacionar conteúdos de outras disciplinas, como, características geográficas de determinadas regiões associadas à presença de elementos sobrenaturais (por exemplo, em comunidades menos urbanizadas, a presença de lobisomem), e o trabalho se torna consistente a partir da leitura e da produção de outros textos sobre e/ou do gênero estudado em sala de aula. Além disso, outras linguagens artísticas (cinema, música, artes plásticas, entre outras) e outros suportes, sobretudo sites da internet, dialogam com as produções estudadas, fazendo que o aluno amplie seu repertório cultural sem desconsiderar o contexto em que está inserido culturalmente.

A formação de leitores literários se consolida por meio de ações mediadoras que façam com que o aluno se aproprie da palavra escrita como uma ferramenta para perceber, entender e intervir em sua própria narrativa de vida. Tal processo exige a consolidação de um projeto pedagógico de formação de leitores, que se qualifica com a participação de vários segmentos da escola, sobretudo dos professores e de seus gestores, que, muitas vezes, precisam subsidiar, financeiramente, a compra de acervo para a biblioteca e para os projetos de leitura literária. Para que isso se efetive, também é fundamental que os mediadores de leitura que estejam à frente dos projetos sejam leitores de literatura de qualidade, tenham a sensibilidade para a escuta do repertório cultural trazido pelos alunos e que ofereçam propostas de produção que sejam espaços de construção de subjetividade dos seus educandos.        

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Oficina de Poesia - Sérgio Vaz

Esta crônica do Sérgio Vaz pode ser um exercício de imaginação com seus alunos para mostrar-lhes o conceito de poesia. 

OFICINA DE POESIA
"O que é poesia?" O menino me perguntou na escola.
"Poesia é a forma diferente de olhar as coisas." Respondo, mas sem saber bem se essa é a resposta.
Peguei um copo com água e perguntei:
" O que tem em minhas mãos?"
"Água." Todos responderam.
Perguntei de novo:
" O que tem nas minhas mãos?"
"Água."
Perguntei mais uma vez, só que desta vez alguém lá no fundo, alguém disse:
"Mar."
do outro lado alguém disse
"Chuva."
"Enchente."
"Lágrimas."
"Vida."
"Suor."
"Refrigerante."
"Suco."
"Banho."
etc.
etc.
etc.
Aí, eu perguntei:
"Pera lá, mas agora pouco não era só um copo de água?"
"Ha, ha, ha, ha, ha, ha..."
"Ha, ha, ha, ha, ha, ha, ha..."
E todos nós rimos como se a dor não existisse.
E a água da poesia quase afogou meus olhos.
O Coração já tinha transbordado há muito tempo.
Poeta Sergio Vaz no Facebook

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

POESIA E ADOLESCÊNCIA: será que rola?

É bem comum ouvir professores dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio afirmarem que seus alunos adolescentes não gostam de ler poesia. 

No entanto, parece-me que esta constatação não contempla um olhar atento do mediador de leitura literária para seu público jovem: o modo como os adolescentes se relacionam com a palavra escrita, se dá, em grande parte das vezes, através do poema. É só olhar as últimas folhas de um caderno de adolescente. Em meio a assinaturas estilizadas, coraçõezinhos, encontramos frases soltas que revelam as inquietações amorosas e existenciais do jovem, mas também frases cheias de ironia - um exemplo é o "só que não!" - figura de linguagem bastante utilizada pelos teens. Grande parte do acervo linguístico dos jovens vem da internet, através dos memes, das letras de música, dos poemas apócritos (caso dos supostos poemas de Clarice Lispector e Caio Fernando "de" Abreu). 

O que fazer com este repertório de conhecimentos trazidos empiricamente pelo aluno? Primeiro, não se pode desprezá-lo, ainda que a qualidade literária desses textos não seja a desejável pelo professor. Letras de música são uma forma de aproximação do jovem com a poesia, através de gêneros que exploram elementos visuais do poema, como o RAP (a propósito, sua sigla em inglês é Rhythm and Poetry), a MPB e, inclusive, outros menos explorados, como o repente e a trova (formas de improvisação musical). A partir deste estudo, resgatar a origem da poesia, que nasce ligada à música na Grécia Antiga, propõe um diálogo interdisciplinar com Artes e História. A propósito, recomendo o texto do poeta Arnaldo Antunes, "A origem da poesia". A obra poética de Antunes, a de poetas concretistas, como os irmãos Campos e Décio Pignatari, e de contemporâneos, como Alice Ruiz e Ricardo Silvestrin, propõem inúmeros jogo de sentidos com a palavra concreta, muitas vezes, com ironia. Que tal propor jogos de criação com a palavra e expor como uma intervenção poética pelas paredes e corredores da escola?

Tratando de acervo de poesia autoral para jovens, além dos autores indicados acima - aceito sugestões, pois o conhecimento sempre é limitado - indico "Duelo de Batman contra a MTV", de Sérgio Capparelli, que trata do rompimento simbólico que o jovem precisa ter com sua família para que consiga construir sua própria história; "Um pequeno tratado de brinquedos para meninos quietos da cidade", de Selma Maria, que, com muita sensibilidade, traz imagens poéticas que dialogam com a vida urbana; "Autorretrato", de Renata Bueno, cujo projeto literário e gráfico pode possibilitar atividades que proponham um autorreconhecimento deste jovem. Lembro também de dois livros que li com os alunos (não os tenho aqui comigo), mas que conversam bastante com o universo juvenil, "Poeplano", de Dilan Camargo, e "Futurações", de Caio Riter.


Com os poetas "clássicos", a lista é grande e varia muito de acordo com a percepção do mediador de leitura em relação a seus alunos (seus hábitos, gostos pessoais). Dependendo do acervo da biblioteca, ou até mesmo do que está disponível na internet, o interessante é ofertar uma lista de autores para que os próprios alunos façam suas preferências e que sugiram a inserção de novos nomes para a lista. Pela minha experiência, Mario Quintana é o queridinho dos adolescentes - tanto pelo lirismo como pela amargura presentes em seus poemas.